Foto: Donald Trump. Foto: Reprodução New York Mag

Humberto Dantas | A derrota mostra quem é grande

Tempo de leitura: 5 minutos

Artigo de Humberto Dantas | doutor em ciência política pela USP, pesquisador pós-doutorando em administração pública pela FGV-SP. Head de Educação do CLP e coordenador do MLG.

Faz alguns dias, publiquei no site da revista Problemas Brasileiros um texto afirmando que o pior competidor é aquele que não sabe perder. Usei como exemplos as irresponsáveis atitudes de Henrique Capriles na Venezuela em 2013, Aécio Neves no Brasil em 2014, Jair Bolsonaro em 2018 e Donald Trump em 2020. Bolsonaro, todos sabem, venceu as eleições, mas não deixou de afirmar no decorrer daquele pleito que não aceitaria a derrota, e recentemente afirmou que o pleito foi fraudado, pois ele o venceu no primeiro turno.

Sobre a afirmação inconsequente, definitivamente, qualquer pessoa que conheça um pouco sobre teoria da democracia perceberá o tamanho da aberração. O mesmo se aplica à recusa de Capriles a reconhecer a vitória na Venezuela em 2013, ao fato de Aécio ter pedido recontagem de votos em 2014 para “encher o saco do PT” e ao gesto de Trump ao negar hoje o mesmo sistema que o elegeu em 2016.

Psicologicamente é absoluto afirmar: os eleitos precisam estar preparados para o que representa o poder, mas os derrotados precisam estar em paz com seus egos, pois tendem a transformar frustrações de ordem pessoal em afrontas à democracia.

Para além da declaração antecipada de Jair Bolsonaro em 2018, e da afirmação aparentemente infundada de 2020 sobre a vitória em primeiro turno, o presidente voltou a atacar a urna e afirmar seu desejo de ver valer o voto impresso acoplado ao sufrágio eletrônico em 2022. Com isso, já deu mostras de que vai desqualificar a próxima eleição se esta não for do seu jeito. Se ganhar, vai fazê-lo reclamando. E se perder? Ameaçará a democracia? A conferir.

Os competidores

Bons competidores, quando entram em uma disputa, legitimam as regras do jogo. Aceitar participar é concordar. A Justiça existe para mediar problemas associados às percepções de que algo não está certo no curso de uma disputa democrática, por exemplo. Assim, ela pode ser acessada e, obviamente, tem como determinar que uma reclamação faz sentido. O problema não é esse. A questão é a intensidade, a forma e o modo como maus perdedores têm agido pelo mundo. E aqui residem dois aspectos fundamentais que devem fazer parte da agenda dos perdedores, por mais que isso possa dialogar com suas frustrações.

Aspectos do bom perdedor

O primeiro. Em uma disputa eleitoral democrática é parâmetro basilar que derrotados comuniquem que aceitam os resultados. A partir de então, vencedores se manifestam. Muitos podem achar que isso é menor, mas existe quem diga que isso é parâmetro fundamental da democracia. Por uma razão: quando se disputa uma eleição, um agente não precisa apenas saber lidar com suas frustrações e limitações pessoais, ele deve compreender que é um agente que representa a legitimação de algo infinitamente maior que ele mesmo e seus aborrecimentos. Ao perdedor cabe dizer aos seus eleitores: o jogo foi jogado, aceitem, e sejamos governados por quem ganhou. Esse gesto é um ato democrático.

O segundo. Para o perdedor que está no poder, a democracia é simbolizada pela passagem de poder – pela transferência. Aqui também existem rituais elementares. Quando Lula chegou ao poder nas eleições de 2002, tomou posse numa cerimônia composta de milhares de pessoas na Esplanada dos Ministérios. Pouco importa, para os fins deste texto, o que fez depois. O fato é: ninguém estava nos gramados de Brasília para ver Fernando Henrique Cardoso. A hora de brilhar era de seu sucessor, e adversário político e ideológico. FHC foi massacrado pelo PT no decorrer de seus oito anos de poder. Em 1999 até pedido de impeachment contra si teve protocolado pelo principal partido de oposição. Seus gestos e decisões sempre serviram de vitrine para o PT construir o discurso do contraditório. Mas isso é do jogo, é da democracia. Assim como também o era a presença de FHC, a despeito de mágoas e diferenças. O derrotado dá parte da sustentação necessária ao vencedor. Simples assim.

Áñez, Trump e Figueiredo

Pois bem, Trump teria que seguir a tradição de enviar uma carta de conselhos a Biden. O que enviará? Na Bolívia, depois de meses de um novo capítulo da eterna instabilidade política do país, Luis Arce tomou posse como presidente eleito. E quem não estava na cerimônia? A presidente que foi parte do contragolpe ocorrido no país, de um partido de posição oposta àquela do novo mandatário. Simplesmente foi embora. Voltou para seu estado.

O Brasil já havia nos dado essa lição antes. Em 1985, o presidente Figueiredo tomou idêntica atitude. Preparou uma carta para a posse de Tancredo Neves, mas o eleito faleceu. Em meio às indefinições de bastidores que cercaram a posse ou não de seu vice, o Brasil findou sendo governado por José Sarney. O maranhense havia deixado o PDS, antiga Arena, e, depois de passar pelo PFL, foi chamado de traidor por alguns militares quando foi visto nas frentes do PMDB como vice de Tancredo. Os historiadores contam que foi isso que levou Figueiredo a deixar o poder pela porta dos fundos – mesmo local por onde entrou. Se bem que há quem diga que um ditador não toma o poder pelos fundos, mas sim pelo esgoto.

A despeito da procedência do ex-general, a diferença central talvez seja: Figueiredo não foi o resultado da democracia, sempre pediu para ser esquecido e seguramente conseguiu o que tanto sonhou. Ninguém se lembra dessa figura, assim como provavelmente o mundo tratará de esquecer facilmente de Donald Trump e da boliviana Jeanine Áñez. A democracia, ao menos, nos oferta esse conforto: tratamos de apagar facilmente quem pouco acrescenta a ela.


LIDERANÇA E GESTÃO PÚBLICA | QUEM É QUEM
Professores do Máster em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP

Patricia Tavares
Doutora em Administração pela FGV, Visiting Fellow of Practice da Blavatnik School of Government, Universidade de Oxford. Co-fundadora e sócia da Datapedia.info, a maior plataforma de dados sócio-econômicos e eleitorais do país. Consultora e Professora do Insper e do CLP.

Humberto Dantas
Doutor em ciência política pela USP, pesquisador pós-doutorando em administração pública pela FGV-SP. Head de Educação do CLP e coordenador do MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Antônio Napole
Administrador de empresas pela FGV-EAESP, bacharel em Rádio TV pela FAAP e mestrando em jornalismo nas Cásper Líbero. Napole é professor do MLG e vice presidente da Kaiser Associates, consultoria de estratégia. 

Fernando S. Coelho
Doutor em administração pública pela FGV, professor de gestão pública da EACH-USP.  Docente-colaborador do Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Diego Conti
Doutor em administração pela PUC-SP e pela Leuphana Universität Lüneburg (Alemanha) em governança urbana e sustentabilidade. Mestre em administração pela PUC-SP com pesquisa sobre indicadores de sustentabilidade. Consultor internacional, pesquisador e professor de pós-graduação do mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da UNINOVE e professor associado do CLP – Liderança Pública.

Denilde Holzhacker
Doutor em ciência política pela USP. Foi visiting scholar no Bentley University, (MA, Estados Unidos). Professora na ESPM-SP e coordenadora do Legislab-ESPM. Integra a rede de professores MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Vinícius Müller
Doutor em História Econômica, colaborador da Revista Digital Estado da Arte, do Estadão,  e professor do INSPER e do CLP. Autor de Educação Básica, Financiamento e Autonomia Regional (Ed. Alameda) 

Rodrigo Estramanho
Bacharel em Sociologia e Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP), Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP. É professor na FESPSP e no MLG, pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP) da PUC/SP e psicanalista membro do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Humberto Falcão Martins
Professor da EBAPE/FGV e EAESP/FGV, visiting fellow na London School of Economics. Fundador do Instituto Publix. Foi Secretário de Gestão no Min. do Planejamento, delegado do Brasil no Comitê de Gestão Pública da OCDE e Presidente da Rede de Gestão Pública e Transparência do BID. Bacharel em Administração pela UnB, Mestre em Administração Pública pela EBAPE/FGV, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (ENAP) e Doutor em Administração pela EBAPE/FGV.

Eduardo Deschamps
Doutor em Engenharia pela UFSC, Professor da Universidade Regional de Blumenau – FURB e do MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP. Conselheiro do CEE-SC. Presidente do CNE (2016-2018).

Gabriela Lotta
Doutora em ciência política pela USP, professora de administração pública pela FGV EAESP. Coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB/FGV).

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5/5 QUARTA

  1. NO O GLOBO. Zeina Latif. Haverá apoio para aventuras? A eleição presidencial está distante, mas contamina o cenário econômico.
  2. NO VALOR. Martin Wolf. Menos conversa e mais ação pelo clima. O tempo é limitado e os desafios políticos e econômicos, enormes.
  3. NO ESTADÃO. Silvia Piva e Bianor Arruda Bezerra Neto. As três dimensões da transformação do Judiciário: pessoas, processos e tecnologia.
  4. NO VALOR. Tiago Cavalcanti. Produtividade estagnada. Quebra-cabeça brasileiro de ganhos significativos de escolaridade e estagnação da produtividade não é fácil de ser explicado.
  5. NO VALOR. Roberto Alvarez. A indústria brasileira entre o passado e o futuro. Os resultados pífios das nossas políticas industriais não construíram o futuro.

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