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O Brasil está ficando mais velho, mas as cidades estão se preparando para isso?

O Brasil envelheceu em uma velocidade que já pode ser percebida nos números. Em 2022, 22,2 milhões de brasileiros tinham 65 anos ou mais, o equivalente a 10,9% da população. Em 2010, eram aproximadamente 14 milhões, ou 7,4%. Em apenas 12 anos, o contingente nessa faixa etária cresceu 57,4%.

A mudança não termina aí. As projeções demográficas do IBGE indicam que a participação das pessoas com 60 anos ou mais, que era de 15,6% em 2023, poderá chegar a 37,8% da população em 2070.

O envelhecimento, portanto, deixou de ser uma questão distante. Ele interfere na maneira como ruas, calçadas, ônibus, moradias, unidades de saúde, praças e serviços públicos precisam funcionar. Uma cidade projetada para uma população predominantemente jovem pode criar obstáculos cotidianos quando seus moradores envelhecem.

A pergunta passa a ser menos sobre se o Brasil ficará mais velho e mais sobre quanto suas cidades conseguirão acompanhar essa transformação.

A mudança demográfica já aconteceu

Os números do Censo mostram que a transformação ocorreu em todas as grandes regiões, embora em ritmos diferentes.

Em 2022, pessoas com 65 anos ou mais representavam 12,2% da população do Sudeste e 12,1% da população do Sul. No Nordeste eram 10,1%, no Centro-Oeste 8,9% e no Norte 7%.

Outro indicador mostra a dimensão da mudança. A idade mediana do brasileiro passou de 29 anos em 2010 para 35 anos em 2022. Isso significa que metade da população já tinha mais de 35 anos no último Censo.

Enquanto a população com 65 anos ou mais cresceu, o movimento entre crianças ocorreu na direção contrária. O número de brasileiros com até 14 anos caiu de 45,9 milhões em 2010 para 40,1 milhões em 2022. A participação desse grupo na população recuou de 24,1% para 19,8%.

Essa inversão modifica gradualmente a demanda por políticas públicas. Municípios que durante décadas precisaram ampliar principalmente estruturas voltadas a uma população jovem passam a enfrentar necessidades diferentes, sem que as antigas desapareçam.

Envelhecer na cidade começa pela calçada

Uma parte importante desse desafio está fora dos hospitais.

Uma calçada irregular pode representar um incômodo para um adulto jovem e, ao mesmo tempo, transformar-se em uma barreira para uma pessoa com mobilidade reduzida. O mesmo vale para pontos de ônibus sem assentos, travessias curtas demais, escadas sem corrimão, prédios públicos pouco acessíveis e bairros nos quais serviços básicos ficam distantes das residências.

O próprio Estatuto da Pessoa Idosa determina a eliminação de barreiras arquitetônicas e urbanísticas para garantir acessibilidade. A legislação também assegura gratuidade no transporte coletivo urbano e semiurbano aos maiores de 65 anos, reserva de assentos e prioridade e segurança nos procedimentos de embarque e desembarque.

Ter o direito previsto em lei, porém, não resolve sozinho a dimensão urbana do envelhecimento.

Um ônibus gratuito continua pouco acessível se chegar a um ponto inadequado para uma pessoa com dificuldade de locomoção. Uma unidade de saúde pode existir, mas sua localização e a forma de chegar até ela também interferem no acesso. Moradia, transporte e desenho urbano acabam se conectando.

Essa visão aparece na metodologia internacional das cidades amigas das pessoas idosas. A Organização Mundial da Saúde trabalha com áreas que incluem espaços públicos e edifícios, transporte, habitação, participação social, inclusão, participação cívica, comunicação e serviços comunitários e de saúde.

O conceito amplia a discussão: preparar uma cidade para envelhecer não significa apenas construir equipamentos destinados exclusivamente a idosos. Significa permitir que uma pessoa continue circulando, utilizando serviços e participando da comunidade à medida que sua capacidade física e suas necessidades mudam.

O Brasil começou a criar uma política nacional para cidades mais amigáveis

Em julho de 2026, entrou em vigor a Lei nº 15.476, que criou no país o título Cidade Amiga do Idoso.

A legislação prevê reconhecimento aos municípios que apresentem esforços na implementação de políticas de envelhecimento ativo. Entre as áreas avaliadas estão transporte, moradia, participação social, inclusão, emprego, prédios e espaços públicos, comunicação, serviços de saúde e segurança das pessoas idosas.

O movimento ocorre paralelamente à participação brasileira na Rede Global de Cidades e Comunidades Amigas das Pessoas Idosas, iniciativa da OMS.

Em março de 2026, o Brasil passou a integrar a rede como programa nacional. Naquele momento, 69 cidades brasileiras faziam parte da iniciativa. Em julho, a OPAS informou que o número havia chegado a 70 municípios, além dos estados do Rio de Janeiro e do Paraná como programas subnacionais.

O avanço é significativo em relação a alguns anos atrás. Em 2018, eram apenas quatro cidades brasileiras na rede. Em 2023, eram 32.

Mas a comparação com o tamanho do país mostra a escala do desafio. O Brasil possui milhares de municípios e apenas uma parcela deles integra atualmente essa rede internacional.

A adesão, por si só, também não significa que uma cidade já esteja completamente adaptada. A própria OPAS esclarece que o reconhecimento está relacionado ao compromisso de desenvolver ambientes mais adequados às pessoas idosas e implementar planos de ação.

O desafio muda de uma cidade para outra

A preparação para o envelhecimento não pode ser medida apenas pela existência de uma política nacional.

O Censo mostra diferenças demográficas importantes entre as regiões. Sul e Sudeste já apresentam proporções maiores de moradores com 65 anos ou mais, enquanto o Norte mantém uma população relativamente mais jovem.

Também existem diferenças dentro dos próprios estados. Municípios pequenos, cidades médias, regiões metropolitanas e áreas rurais enfrentam problemas distintos.

Em uma metrópole, transporte coletivo, travessias, acessibilidade de calçadas e distância entre moradia e serviços podem assumir grande importância. Em municípios menores, a oferta de atendimento especializado, transporte para consultas e permanência de serviços próximos da população podem representar desafios diferentes.

Idosos acima de 60 anos, Imagem Divulgação

Isso torna o planejamento municipal especialmente relevante. Uma cidade não precisa esperar que um quarto ou um terço de seus moradores seja idoso para começar adaptações que levam anos para serem executadas.

Há ainda uma característica importante nesse tipo de investimento: várias mudanças destinadas a facilitar a vida de pessoas idosas também beneficiam outros grupos.

Calçadas acessíveis ajudam quem utiliza cadeira de rodas, pessoas com deficiência, adultos temporariamente lesionados e famílias com carrinhos de bebê. Sinalização clara, transporte acessível, travessias seguras e serviços próximos à moradia também não são exclusivos de determinada faixa etária.

Foi justamente essa lógica que levou a OMS a estruturar o conceito de ambientes amigáveis às pessoas idosas como uma política ligada ao funcionamento geral das comunidades.

O relógio demográfico anda mais rápido que uma obra urbana

A transformação das cidades costuma ser lenta. Obras de mobilidade levam anos, redes de saúde exigem planejamento, bairros se consolidam durante décadas e a substituição ou adaptação de infraestrutura urbana ocorre gradualmente.

A mudança demográfica também é gradual, mas seus números já estão definidos em boa medida pelas gerações que hoje vivem no país.

As projeções do IBGE apontam para uma participação crescente das pessoas idosas nas próximas décadas. Isso significa que decisões municipais tomadas agora sobre transporte, habitação, acessibilidade, atenção à saúde e desenho dos espaços públicos serão utilizadas por uma população com perfil etário diferente daquele existente quando grande parte das cidades brasileiras se expandiu.

O Brasil começou a construir instrumentos para enfrentar essa mudança. A criação do título nacional Cidade Amiga do Idoso e a ampliação da participação de municípios brasileiros na rede da OMS mostram que o envelhecimento já entrou na agenda pública.

Os próprios números, porém, colocam a dimensão do trabalho pela frente: 70 cidades brasileiras participavam da Rede Global da OMS em julho de 2026, enquanto a população idosa continuará crescendo por décadas.

A adaptação necessária não acontecerá quando o Brasil se tornar um país de idosos. Ela precisa ocorrer enquanto o país envelhece.

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