O presidente dos EUA e candidato republicano à reeleição, Donald Trump, faz comício na Pensilvânia. Foto: Julia Mineeva | TheNews2 | Estadão Conteúdo

Vinícius Müller | Lideranças sabem História

Tempo de leitura: 4 minutos

De Roosevelt a Reagan; de George Washington a James Monroe: lideranças se constroem coladas aos valores que as antecederam. Entre o mundo e os EUA, os norte-americanos escolheram os EUA na maior parte da sua história. Foi sobre este valor que Trump construiu seu discurso.

Artigo de Vinícius Müller |Doutor em História Econômica, professor do INSPER e do CLP. Autor de Educação Básica, Financiamento e Autonomia Regional.

Escrevo este texto antes da eleição norte-americana de 03 de novembro. Contudo, independentemente do resultado, a inesperada vitória em 2016, sua metralhadora verbal pouco adequada à etiqueta política e suas idiossincrasias, transformaram Donald Trump numa liderança que agora disputa a reeleição. Suas polêmicas, o comportamento refratário aos organismos internacionais e, recentemente, sua reação à pandemia que nos assombra neste ano de 2020, fizeram com que respeitáveis analistas identificassem em Trump uma real ameaça à democracia norte-americana.

Por isso, a questão sobre os motivos que fizeram com que parcelas da população escolhessem Trump foi repetidamente debatida por todas as colorações políticas. E as respostas em sua maioria não me interessaram. Não porque impertinentes, mas porque faltavam a elas uma perspectiva histórica que vinculasse a ascensão do polêmico empresário à formação e trajetória da nação norte-americana.

Roosevelt: igualdade de oportunidades

Em 1932, por exemplo, Franklin Delano Roosevelt ganhou a eleição à presidência dos EUA porque soube, em meio aos caos que se instalara após a crise de 1929, vincular suas propostas a alguns dos valores mais caros à história dos EUA. Desde o final do século anterior havia um mal estar derivado da percepção de que alguns de seus valores matriciais poderiam criar uma armadilha com potencial para desagregar a sociedade. Este dilema opunha, por um lado, a crença de que o país havia se organizado sobre o valor da liberdade dos indivíduos em usar suas propriedades como fatores de produção de riqueza. E que esta liberdade era o que os tornava iguais. Por outro lado, esta liberdade havia sido negada para parte considerável da população, como também produzido efeitos colaterais a partir da ascensão dos multimilionários empresários do fim do século XIX. A grande depressão que seguiu a crise de 1929 seria a prova de que a sobreposição entre liberdade e igualdade havia se rompido. E que entre elas, a igualdade seria privilegiada. Foi sobre o valor da igualdade de oportunidades que se ergueu a liderança de Roosevelt.

Reagan: proteção do indivíduo ante o poder do Estado

Depois de meio século sob o paradigma da liderança de Roosevelt, um novo dilema se avultou e o país discutia se tamanha ampliação da atuação estatal não havia distorcido outro valor fundamental da sua formação: a proteção do indivíduo ante o poder do Estado. E foi sobre este valor que Ronald Reagan ganhou duas eleições na década de 1980, entrando para a história como aquele que recuperou a combalida economia norte-americana e, mais importante, venceu a Guerra Fria.

EUA em primeiro lugar

Muito tempo antes, George Washington disse, em 1796, que a principal regra de política externa dos EUA era a não obrigação em manter permanentes suas alianças com outros países. Em 1823, James Monroe disse que os problemas europeus não poderiam pesar sobre a América, assim como os problemas americanos não diziam respeito ao velho continente. Esta perspectiva foi parcialmente abandonada pelo presidente Wilson entre os anos de 1917 e 1920. E só foi finalmente abandonada pelos EUA na Segunda Grande Guerra. Ou seja, entre o mundo e os EUA, na maior parte da sua história os norte-americanos escolheram os EUA. Foi sobre este valor que Trump construiu seu discurso.

Portanto, independentemente da qualidade, perenidade e legado, a liderança não se constrói se estiver descolada dos valores que a antecederam. E os valores não se esgotam na discussão sobre o passado recente. Ao contrário, eles são resultados de uma longa trajetória de suas contradições ao longo do tempo. Em outras palavras, a História e os valores que dela aprendemos são as matérias-primas que constroem as lideranças.


LIDERANÇA E GESTÃO PÚBLICA | QUEM É QUEM
Professores do Máster em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP

Patricia Tavares
Doutora em Administração pela FGV, Visiting Fellow of Practice da Blavatnik School of Government, Universidade de Oxford. Co-fundadora e sócia da Datapedia.info, a maior plataforma de dados sócio-econômicos e eleitorais do país. Consultora e Professora do Insper e do CLP.

Humberto Dantas
Doutor em ciência política pela USP, pesquisador pós-doutorando em administração pública pela FGV-SP. Head de Educação do CLP e coordenador do MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Antônio Napole
Administrador de empresas pela FGV-EAESP, bacharel em Rádio TV pela FAAP e mestrando em jornalismo nas Cásper Líbero. Napole é professor do MLG e vice presidente da Kaiser Associates, consultoria de estratégia. 

Fernando S. Coelho
Doutor em administração pública pela FGV, professor de gestão pública da EACH-USP.  Docente-colaborador do Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Diego Conti
Doutor em administração pela PUC-SP e pela Leuphana Universität Lüneburg (Alemanha) em governança urbana e sustentabilidade. Mestre em administração pela PUC-SP com pesquisa sobre indicadores de sustentabilidade. Consultor internacional, pesquisador e professor de pós-graduação do mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da UNINOVE e professor associado do CLP – Liderança Pública.

Denilde Holzhacker
Doutor em ciência política pela USP. Foi visiting scholar no Bentley University, (MA, Estados Unidos). Professora na ESPM-SP e coordenadora do Legislab-ESPM. Integra a rede de professores MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Vinícius Müller
Doutor em História Econômica, colaborador da Revista Digital Estado da Arte, do Estadão,  e professor do INSPER e do CLP. Autor de Educação Básica, Financiamento e Autonomia Regional (Ed. Alameda) 

Rodrigo Estramanho
Bacharel em Sociologia e Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP), Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP. É professor na FESPSP e no MLG, pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP) da PUC/SP e psicanalista membro do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Humberto Falcão Martins
Professor da EBAPE/FGV e EAESP/FGV, visiting fellow na London School of Economics. Fundador do Instituto Publix. Foi Secretário de Gestão no Min. do Planejamento, delegado do Brasil no Comitê de Gestão Pública da OCDE e Presidente da Rede de Gestão Pública e Transparência do BID. Bacharel em Administração pela UnB, Mestre em Administração Pública pela EBAPE/FGV, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (ENAP) e Doutor em Administração pela EBAPE/FGV.

Eduardo Deschamps
Doutor em Engenharia pela UFSC, Professor da Universidade Regional de Blumenau – FURB e do MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP. Conselheiro do CEE-SC. Presidente do CNE (2016-2018).

Gabriela Lotta
Doutora em ciência política pela USP, professora de administração pública pela FGV EAESP. Coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB/FGV).

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5/5 QUARTA

  1. NO O GLOBO. Zeina Latif. Haverá apoio para aventuras? A eleição presidencial está distante, mas contamina o cenário econômico.
  2. NO VALOR. Martin Wolf. Menos conversa e mais ação pelo clima. O tempo é limitado e os desafios políticos e econômicos, enormes.
  3. NO ESTADÃO. Silvia Piva e Bianor Arruda Bezerra Neto. As três dimensões da transformação do Judiciário: pessoas, processos e tecnologia.
  4. NO VALOR. Tiago Cavalcanti. Produtividade estagnada. Quebra-cabeça brasileiro de ganhos significativos de escolaridade e estagnação da produtividade não é fácil de ser explicado.
  5. NO VALOR. Roberto Alvarez. A indústria brasileira entre o passado e o futuro. Os resultados pífios das nossas políticas industriais não construíram o futuro.

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