Meninos jogam capoeira na Casa de Cultura M' Boi Mirim, zona sul da capital paulista. Foto: Paulo Pinto | Estadão Conteúdo

Mais tradições, menos cimento: os desafios das cidades

Tempo de leitura: 4 minutos

Artigo de Vinícius Müller |Doutor em História Econômica, professor do INSPER e do CLP. Autor de Educação Básica, Financiamento e Autonomia Regional.

Em minha graduação conheci uma ampla literatura sobre a história das cidades. Nela, duas abordagens me interessaram. Em uma delas, a cidade é palco dos embates entre grupos sociais diferentes. Noutra, a cidade é um objeto voltado ao entendimento – e não à luta – entre tradições e novidades, indivíduos e grupos, nativos e forasteiros. Embora a primeira fosse mais atraente como categorização, a segunda me parecia mais desejável.

Com isto, pude refletir sobre a relação entre uma história pessoal e o crescimento da cidade onde morei durante a juventude: uma pessoa de minha família se enamorou com um rapaz durante a adolescência. Ela, nascida na classe média alta e filha de profissionais liberais. Ele, morador do bairro operário, distante alguns quilômetros do espaço de sociabilidade dela. Ele, fruto da ampliação das oportunidades para os operários no século XX. Ela, impactada pela instabilidade da classe média liberal na crise dos anos 80.

A cidade cresceu suficientemente para que eles se encontrassem nos espaços originados pelas mudanças. Tanto a urbana no sentido estrito, como o avanço da infraestrutura de transporte, como também as oscilações sociais e econômicas que enfrentavam. O problema é que este encontro gerou mais conflitos do que soluções. Resistências familiares, estranhamento de seus pares sociais e diferentes perspectivas e ambições.  No microscópio, tudo se encaminhou bem, já que ainda formam uma família após três décadas.

Mas, em plano mais amplo, a cidade teve dificuldade em manter seus espaços tradicionais de sociabilidade, como festas, restaurantes e agremiações esportivas. Nos primeiros grandes desafios que enfrentaram, estes espaços serviram de palco para a violência entre grupos, cujos resultados foram a destruição de patrimônio e a desfiguração dos locais centrais, além do isolamento de muitos em condomínios fechados, transferência de parte da vida social e econômica para cidades vizinhas e desmantelamento de festas, costumes e tradições.

Contudo, este conflito não nos conta todo o fenômeno. Assim como os membros de minha família, outras tantas pessoas também reconstruíram suas sociabilidades ante a transformação da cidade. O grande desafio não foi só como transpor as bem sucedidas experiências pessoais e familiares à criação de uma cidade mais coesa e pacífica. Mas, sim, como usar as tradições em favor de uma cidade mais plural e inclusiva. Não como defesa ingênua de uma tradição que não se move, mas, sim como a cola necessária para a coesão entre os cidadãos. Além de reconhecer que os elementos que devem ser valorizados são os mais flexíveis e expansivos; e não os que se encerram em si mesmos.

Por exemplo, não é a tentativa de manter intransponíveis os muros dos locais de certos grupos sociais, como clubes, festas e restaurantes. Ao contrário, é reconhecer que a maior inclusão foi responsável pela sobrevivência das práticas esportivas que caracterizam aquela cidade; e também pela consolidação de uma tradição gastronômica e cultural. Ou seja, que o importante não é a manutenção da agremiação esportiva, do restaurante e da festa. E sim, da modalidade esportiva, da tradição gastronômica e da cultura. E quanto mais gente participar disso, maior a chance de sobrevivência destes elementos e de criação de espaços de convivência entre pessoas e grupos que, mesmo com suas diferenças, estão ávidos para se desenvolveram a partir de suas semelhanças. Assim como o feliz casal da história.

Quando os gestores municipais perceberem isso, talvez deem maior relevância às suas secretarias de esporte e de cultura. E não só à construção de avenidas. Ou seja, depositem suas atenções e esperanças em pessoas e valores, não em cimento.


LIDERANÇA E GESTÃO PÚBLICA | QUEM É QUEM
Professores do Máster em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP

Patricia Tavares
Doutora em Administração pela FGV, Visiting Fellow of Practice da Blavatnik School of Government, Universidade de Oxford. Co-fundadora e sócia da Datapedia.info, a maior plataforma de dados sócio-econômicos e eleitorais do país. Consultora e Professora do Insper e do CLP.

Humberto Dantas
Doutor em ciência política pela USP, pesquisador pós-doutorando em administração pública pela FGV-SP. Head de Educação do CLP e coordenador do MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Antônio Napole
Administrador de empresas pela FGV-EAESP, bacharel em Rádio TV pela FAAP e mestrando em jornalismo nas Cásper Líbero. Napole é professor do MLG e vice presidente da Kaiser Associates, consultoria de estratégia. 

Fernando S. Coelho
Doutor em administração pública pela FGV, professor de gestão pública da EACH-USP.  Docente-colaborador do Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Diego Conti
Doutor em administração pela PUC-SP e pela Leuphana Universität Lüneburg (Alemanha) em governança urbana e sustentabilidade. Mestre em administração pela PUC-SP com pesquisa sobre indicadores de sustentabilidade. Consultor internacional, pesquisador e professor de pós-graduação do mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da UNINOVE e professor associado do CLP – Liderança Pública.

Denilde Holzhacker
Doutor em ciência política pela USP. Foi visiting scholar no Bentley University, (MA, Estados Unidos). Professora na ESPM-SP e coordenadora do Legislab-ESPM. Integra a rede de professores MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Vinícius Müller
Doutor em História Econômica, colaborador da Revista Digital Estado da Arte, do Estadão,  e professor do INSPER e do CLP. Autor de Educação Básica, Financiamento e Autonomia Regional (Ed. Alameda) 

Rodrigo Estramanho
Bacharel em Sociologia e Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP), Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP. É professor na FESPSP e no MLG, pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP) da PUC/SP e psicanalista membro do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Humberto Falcão Martins
Professor da EBAPE/FGV e EAESP/FGV, visiting fellow na London School of Economics. Fundador do Instituto Publix. Foi Secretário de Gestão no Min. do Planejamento, delegado do Brasil no Comitê de Gestão Pública da OCDE e Presidente da Rede de Gestão Pública e Transparência do BID. Bacharel em Administração pela UnB, Mestre em Administração Pública pela EBAPE/FGV, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (ENAP) e Doutor em Administração pela EBAPE/FGV.

Eduardo Deschamps
Doutor em Engenharia pela UFSC, Professor da Universidade Regional de Blumenau – FURB e do MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP. Conselheiro do CEE-SC. Presidente do CNE (2016-2018).

Gabriela Lotta
Doutora em ciência política pela USP, professora de administração pública pela FGV EAESP. Coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB/FGV).

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Seleção diária de artigos para enriquecer a discussão da agenda positiva do País

5/5 QUARTA

  1. NO O GLOBO. Zeina Latif. Haverá apoio para aventuras? A eleição presidencial está distante, mas contamina o cenário econômico.
  2. NO VALOR. Martin Wolf. Menos conversa e mais ação pelo clima. O tempo é limitado e os desafios políticos e econômicos, enormes.
  3. NO ESTADÃO. Silvia Piva e Bianor Arruda Bezerra Neto. As três dimensões da transformação do Judiciário: pessoas, processos e tecnologia.
  4. NO VALOR. Tiago Cavalcanti. Produtividade estagnada. Quebra-cabeça brasileiro de ganhos significativos de escolaridade e estagnação da produtividade não é fácil de ser explicado.
  5. NO VALOR. Roberto Alvarez. A indústria brasileira entre o passado e o futuro. Os resultados pífios das nossas políticas industriais não construíram o futuro.

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