Mandetta | Erros capitais na pandemia e defesa da democracia

Tempo de leitura: 5 minutos

Café com CLP recebeu Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da saúde demitido por Bolsonaro por divergências na condução da pandemia. Foi de Mandetta a iniciativa de elaborar uma carta com cinco presidenciáveis para a defesa da democracia e a construção de um pacto político em busca de convergências para a construção de uma agenda para o País após 2022. Aqui estão reunidos os melhores trechos do debate.

Na noite de 30 de março, Luiz Henrique Mandetta (DEM) iniciou a rascunhar uma carta de defesa da democracia. O País vivia a tormenta política da demissão dos comandantes das Forças Armadas às vesperas da data que marca o golpe de 1964. Mandetta, ainda na noite do dia 30, procurou João Doria (PSDB), Eduardo Leite (PSDB), Ciro Gomes (PDT), João Amoedo (Novo) e Luciano Huck (sem partido) para convidá-los a assinar a carta conjuntamente. O texto recebeu a colaboração de todos os presidenciáveis, apontados como as principais alternativas para uma candidatura de centro em 2022.

A conquista do Brasil sonhado por nós não pode prescindir da Democracia”, afirma o texto. “Ela é o nosso legado, nosso chão, nosso farol. Cabe a cada um de nós defendê-la e lutar por seus princípios e valores.”

A carta foi celebrada como um marco na busca pela convergência em torno de um terreno comum capaz de construir uma candidatura viável que fuja dos extremismos de Jair Bolsonaro (sem partido) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Mandetta, deputado federal pelo Mato Grosso do Sul, foi o primeiro entre os quatro ministros da Saúde do governo Bolsonaro. Saiu em abril do ano passado, demitido por causa das divergências com o presidente da República a respeito do combate à pandemia. Desde então, Mandetta tem se destacado como um crítico contundente das ações do governo federal em meio ao agravamento da crise. Assumiu também papel de protagonista nas articulações do centro político e vem sendo apontado como um forte candidato à Presidência.

No dia 8 de abril, Mandetta foi o convidado do Café com o CLP, encontro promovido pelo Centro de Liderança Pública. O tema do debate com o presidenciável foi “Brasil, um País de Futuro”, com mediação de Luiz Felipe D’Avila, presidente do CLP e Publisher do Virtù. Participaram mais de 200 convidados, entre apoiadores e integrantes da rede CLP.

Na primeira parte do evento, Mandetta falou sobre a pandemia, enfatizando o que chamou de maiores “erros capitais” cometido pelo governo: a perda do timing na organização das ações, a demora em negociar a compra de vacinas e o desmonte a política de testagens em massa (que não começou ser feita). O deputado criticou ainda a quebra do pacto federativo, o que agravou a desarticulação das ações. De acordo com Mandetta, a grande maioria dos ministros não concordava com Bolsonaro.

O ex-ministro explicou por que não acredita que a importação direta por empresas seja uma boa solução e rejeitou também a ideia de quebrar patentes. Falou ainda da dificuldade de fazer lockdowns.

Assista aos melhores momentos da conversa sobre a pandemia

Assista aos melhores momentos da conversa sobre política

Na sequência, o debate focou na política. Mandetta afirmou que, caso prevaleçam projetos pessoias e haja muitas candidaturas, haverá um enorme risco de repetição do cenário fragmentado de 2018 – o que aumenta as chances de populistas extremistas irem ao segundo turno. O presidenciável afirmou que o País não precisa de uma “terceira via” em 2022, mas da “primeira via, da única via”.

A seguir, uma síntese das principais declarações do deputado e presidenciável durante o evento.

Parte 1 | Um ano de pandemia

“O Brasil perdeu o timing. Por decisão errada equivocada. E uma série delas. A primeira perda capital foi perder a unidade.”

“Quando a gente perde o canal de comunicação, você rompe e deixa cada unidade federativa iniciar suas tratativas, porque a doença tá na frente das cidades, principalmente, que é onde as pessoas vivem e acontecem.”

“Um segundo erro capital, que é quando você vai começar a fazer vacinas, eu estava no Ministério. Tinha mais ou menos 120 iniciativas do mundo, todas elas na fase 1.”

“As vacinas foram oferecidas para o Brasil em julho e agosto do ano passado. E não porque nós somos bonzinhos, não, é porque o nosso sistema de delivery, a entrega da vacina no Brasil, a rede tá pronta, a rede é aceita e a rede boa. Então, todo mundo queria um cartão de visita. E todo mundo sabia que tinha que ter um mix de vacina. Nenhum laboratório conseguiria suprir a totalidade. Então, naquele momento, a gente podia ter feito o mix da Coronavac, da AstraZeneca, da Pfizer, da Moderna, da Johnson.”

“O terceiro erro é desmanchar a testagem inteira.”

“Depois, um erro [quarto] capital foi a quebra do pacto federativo por política. Eu preciso tirar a culpa das costas do presidente e jogar essa culpa para um terceiro. Começou jogando na China, na Organização Mundial de Saúde, nos ministros. Depois jogou contra o Congresso, depois terminou com governadores e prefeitos. Essa foi a mais danosa de todos, porque aí virou a população contra qualquer medida.”

“Quanto aos insumos, estamos presos em uma lógica de produção Índia-China. Então, quando esses dois países, que têm pressões internas e bilhões de habitantes, nós vamos viver essa vacina por solução em função dessa concentração. Dessa demanda aquecida interna.”

“O Brasil vai ficar preso a essa dependência, mas o que poderia ter evitado isso, seria relações diplomáticas com qualidade. Elas não se mudam da noite para o dia, elas são construídas com o tempo – e nós abrimos mão dessa diplomacia. Agora, estamos pagando o preço da dependência.”

“O lockdown [serve] como remédio para países com IDH altíssimo, como Nova Zelândia, que tem um colchão social absurdo, como a Alemanha, França. No Brasil, 50% não têm nem saneamento básico. Transporte público caótico. Então, você pegue esse coquetel e analisa isso à luz da sua sociedade.”

“Compra de vacinas privadas: volto a repetir, o problema não é individual.”

“O risco é biológico. O risco é faixa etária. Hoje 86% de quem está nos hospitais tem acima de 60 anos. Ponto.”

“Em diplomacia, você defende os seus interesses. E os interesses do Brasil estão sendo negligenciados”

“O sistema já não tem margem para adequação, ele está todo no limite”

“Fazer um lockdown nacional você não consegue e o resultado não chega na ponta. Você penaliza o sistema todo — esse vírus não é um problema individual, ele é coletivo. Então, a lógica é preparar, proteger e evitar o caos.”

“Você pegar uma vacina para vacinar seu funcionário, a fim de que a sua empresa continue aberta, é esquecer que o problema é coletivo, e não individual. A lógica é que você vai comprar, vai vacinar sua força de trabalho, e não vai mudar em nada no cotidiano de sua empresa.”

Parte 2 | Pacto político

“Quando você olha as pesquisas, você faz as contas e não cabem múltiplas candidaturas. Se fizer é porque você quer que dê pesadelo. Quem quiser jogar no pesadelo, vai para o segundo turno encontrar na urna a opção Lula ou Bolsonaro.”

“Temos a oportunidade de fazer um país livre, sem extremos; se essa democracia ameaçada não nos unir neste momento, nada mais unirá.”

“O desafio desses que assinaram o pacto pela democracia, é realmente começar com esse pacto. Ele começa exatamente pelos princípios políticos de entendimento, de enaltecer e valorizar todos os pontos de convergência. Isso vai ter que ser feito de uma forma plural, com a participação de partidos, sociedade, o todo.”

“O pacto começa exatamente pelos princípios de convivência política, os princípios políticos. De entendimento. De levar à extenuação completa, qualquer ponto de divergência até achar o consenso. E de enaltecer e valorizar todos os pontos de convergência. Isso pode ser iniciado num grupo menor? Pode. Mas vai chegar um momento em que isso vai ter que ser feito plural.”

“Nós estamos mantendo a esperança viva, mas o grande teste da esperança é sair para a rua, debater com o povo. Não adianta pensar que o debate está dentro de uma sala; é preciso entender a massa, gostar da massa e saber para onde ela vai te levar.”

“Não vai ter outro jeito de fazer a não ser por essa via. Eu detesto esse nome centro. Eu gosto de homens centrados, sensatos. A gente fala da terceira via. Terceira via, não. É a primeira . Ou melhor, é a única. Se você quiser saber a única, inteligente.” “Nesse caminho, a eleição é no primeiro turno. Se ele não fragmentar e ele conseguir entrar na casa das pessoas com uma mensagem correta, de cuidado antes de tudo, de reconhecer as fragilidades do país e as potencialidades. E conversar no tom certo, com as pessoas certas, e ter empatia com as pessoas. Gerar empatia, gerar esperança. Esperança nunca é num pedaço de papel. Esperança é coração.”

Compartilhe conhecimento

Tempo de leitura: 5 minutos

Curadoria

Seleção diária de artigos para enriquecer a discussão da agenda positiva do País

5/5 QUARTA

  1. NO O GLOBO. Zeina Latif. Haverá apoio para aventuras? A eleição presidencial está distante, mas contamina o cenário econômico.
  2. NO VALOR. Martin Wolf. Menos conversa e mais ação pelo clima. O tempo é limitado e os desafios políticos e econômicos, enormes.
  3. NO ESTADÃO. Silvia Piva e Bianor Arruda Bezerra Neto. As três dimensões da transformação do Judiciário: pessoas, processos e tecnologia.
  4. NO VALOR. Tiago Cavalcanti. Produtividade estagnada. Quebra-cabeça brasileiro de ganhos significativos de escolaridade e estagnação da produtividade não é fácil de ser explicado.
  5. NO VALOR. Roberto Alvarez. A indústria brasileira entre o passado e o futuro. Os resultados pífios das nossas políticas industriais não construíram o futuro.

Receba a curadoria todos os dias em seu email

Compartilhe conhecimento