Colheita de soja no Mato Grosso. Foto: Rodolpho Buhrer | Estadão Conteúdo

A hora e a vez do Brasil no planeta ESG

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A defesa do ambiente e das políticas de combate às mudanças climáticas estão no centro das atenções dos grandes investidores, formadores de opinião, empresas mais maduras e países desenvolvidos. A mudança vem para ficar. Em 2021, o Brasil tem a oportunidade de ser grande beneficiário dessa transformação. Para isso será preciso aumentar a governança no meio ambiente com assertividade e eliminar crimes ambientais com transparência. A imagem de um Brasil devastador de seus biomas, fortalecida pelo aumento do desmatamento e pelo descaso do governo Bolsonaro, deve ser combatida. É preciso fortalecer parcerias com outros países e trazer maiores investimentos ao agronegócio, o setor mais produtivo do País.

Em 2020, uma sigla de três letras entrou de vez para o vocabulário: ESG, as iniciais de environment, social e governance. Os chamados fundos éticos investem apenas em companhias que seguem critérios elevados nesses três aspectos, de boa governança ambiental, social e corporativa.

As implicações dessa nova preocupação – na verdade, uma nova mentalidade – dos investidores, e também da sociedade como um todo, foram temas recorrentes de artigos e entrevistas do Virtù em 2020. O Brasil poderá ser um dos grandes beneficiários dessa transformação, mas continua dando passos em falso, encarando com desconfiança e reticências algo que deveria ser visto como grande oportunidade.

Nesse novo planeta ESG, desmatamentos ilegais e queimadas são uma aberração, cuja repreensão deveria ser uma política prioritária do governo. Jair Bolsonaro, ao contrário, pauta-se pelo negacionismo e pelo desprezo completo às críticas externas. Se é fato que o Brasil é sim dono das maiores reservas ambientais do planeta, e não o devastador irresponsável como pintam reportagens da mídia internacional, é fato também que no atual governo houve relaxamento do combate aos crimes contra a floresta e a área devastada avançou.

Dados até novembro mostram que foram derrubados mais de 11.000 km² de floresta, a maior área desmatada desde 2008. Os números fazem parte do monitoramento por satélite, realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Três dezenas de grandes gestores internacionais de recursos, que administram fundos de US$ 5 trilhões, cobraram ações mais decisivas do governo brasileiro. Empresas nacionais já começaram a ser penalizadas, perdendo os recursos investidores por alguns desses gestores.

Como lembrou a reportagem ’Crise na imagem ambiental custa bilhões’, existe uma lista de ações que o governo brasileiro deve seguir para reverter a perda de credibilidade, entre elas o aperfeiçoamento do arcabouço regulatório. Estão parados na Câmara dois projetos de lei essenciais para aperfeiçoar o licenciamento ambiental e a regularização fundiária: o PL 3.729, de 2004, e o PL 2.942, de 2019. Ambos fazem parte dos projetos elencados como prioritários pelo movimento Unidos Pelo Brasil.

Outra ação urgente é na área diplomática. Diz o texto: “Graças aos ganhos de produtividade, as lavouras brasileiras batem recordes seguidos e são capazes hoje de alimentar 1 bilhão de pessoas. O Brasil é o país que mais contribui para reduzir a fome no mundo. O Brasil, portanto, deve se orgulhar de suas políticas de preservação e também do sucesso de seu agronegócio”.

Na reportagem ’Brasil arcaico ameaça Brasil competitivo’, Virtù afirmou que a falta de governança no meio ambiente é um cabo de guerra desleal com o desenvolvimento do país: “De um lado, nossa competência agropecuária. Do outro, crimes ambientais e instituições frágeis. Quem tem saído derrotado desse conflito é o Brasil produtivo e competitivo”. A agropecuária é uma âncora verde para a economia, com exportações de US$ 100 bilhões ao ano. É dinheiro que movimenta a atividade empresarial, levando riqueza e oportunidades para o interior do País. Mas o potencial dessa riqueza poderá ser reduzido pelo descontrole na proteção das áreas de reserva ambiental. Um sinal disso é a redução das vendas para o mercado europeu.

Grandes empresas internacionais poderão impor sanções às importações originárias do Brasil. Além disso, se não houve mais empenho no combate aos desmatamentos, ficará mais distante o acordo de livre-comércio com a União Europeia e até mesmo o ingresso do País à Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Até recentemente faltavam critérios mais objetivos para mensurar as boas práticas ambientais, sociais e corporativas, mas começam a surgir parâmetros mais bem-definidos. Esse foi o tema da reportagem ’Os 4 pilares do capitalismo de stakeholders’. O Fórum Econômico Mundial sugere que devem ser observadas 55 métricas (21 principais e 34 complementares), que se dividem em quatro pilares: princípios de governança, pessoas, planeta e prosperidade.

Entrevistas

As Virtù Talks acompanharam de perto os temas ambientais e de capitalismo consciente. Em uma das conversas, o economista Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo e presidente da Ibá – Indústria Brasileira de Árvore, analisou a eficácia da legislação ambiental brasileira e comentou os avanços que deverão ser feitos para que as ações de proteção da floresta tenham credibilidade internacional.

Na conversa com Fábio Barbosa, um dos assuntos centrais foi o aumento da exigência dos investidores, cada dia mais atentos aos critérios ESG. Para o economista é urgente a mobilização da sociedade para a construção de uma nova narrativa para o Brasil na questão ambiental. E garante: sustentabilidade é investimento rentável.

Natalie Unterstell, especialista em políticas públicas para o clima e o ambiente, falou sobre a crescente conscientização de que a defesa da Amazônia é prioridade nacional. Para ela, com determinação e vigilância do governo e de movimentos da sociedade civil, será possível alcançar a meta desmatamento zero até 2030.

Virtù conversou também com os três autores do livro “Brasil: paraíso restaurável”: Jorge Caldeira, Julia Marisa Sekula e Luciana Schaubib. O livro traça um cenário de perspectivas favoráveis para o País num cenário de transição global para a economia de baixo carbono. A natureza, argumentam, ocupará lugar central no desenvolvimento econômico, mas trata-se de algo ainda pouco compreendido pelos governantes brasileiros. Os autores apontam caminhos para transformar o potencial natural do País em ativo e acreditam que Estados e municípios são bons laboratórios.

Já o chairman do Instituto Capitalismo Consciente do Brasil, Hugo Bethlem, comentou como a pandemia poderá catalisar práticas empresariais estruturadas nos pilares propósito, equidade, valores e liderança. Os critérios ESG são parte dessa transformação.

O conjunto das entrevistas e das análises indica que o Brasil perderá tempo se continuar arremetendo contra inimigos imaginários. De fato existe oportunismo de lobbies internacionais contra as exportações do agronegócio brasileiro. Assim como existe radicalismo por parte de alguns ambientalistas. Mas a defesa do ambiente e das políticas de combate às mudanças climáticas estão hoje no centro das atenções dos grandes investidores, dos formadores de opinião de todo o mundo, das empresas mais maduras e dos países desenvolvidos. Não é algo que possa ser simplesmente ignorado. O Brasil apenas desperdiçará uma de suas maiores vantagens competitivas.

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Curadoria

Seleção diária de artigos para enriquecer a discussão da agenda positiva do País

5/5 QUARTA

  1. NO O GLOBO. Zeina Latif. Haverá apoio para aventuras? A eleição presidencial está distante, mas contamina o cenário econômico.
  2. NO VALOR. Martin Wolf. Menos conversa e mais ação pelo clima. O tempo é limitado e os desafios políticos e econômicos, enormes.
  3. NO ESTADÃO. Silvia Piva e Bianor Arruda Bezerra Neto. As três dimensões da transformação do Judiciário: pessoas, processos e tecnologia.
  4. NO VALOR. Tiago Cavalcanti. Produtividade estagnada. Quebra-cabeça brasileiro de ganhos significativos de escolaridade e estagnação da produtividade não é fácil de ser explicado.
  5. NO VALOR. Roberto Alvarez. A indústria brasileira entre o passado e o futuro. Os resultados pífios das nossas políticas industriais não construíram o futuro.

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