Paciência com baixo crescimento acaba após aprovação de reformas

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Sociedade brasileira tem recebido com passividade resultados desanimadores da economia.

Em agosto, o ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu paciência com o baixo crescimento. A sociedade tem obedecido, não há perda de sustentação do governo, apesar das sucessivas quedas nos índices de aprovação – de 30% de ruim ou péssimo em abril para 38% em agosto, de acordo com o Datafolha.
Aprovada a Reforma da Previdência, no entanto, a passividade deve acabar porque foi uma tecla repetidamente batida como panaceia para solução dos problemas. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou, no primeiro semestre, para o risco político de uma frustração no crescimento da economia e recomendou “ação decisiva” contra estagnação.

 

Perda de capital político

O governo tentou ressuscitar um imposto impopular como a CPMF para resolver o equilíbrio fiscal e foi recebido com uma rejeição categórica no ambiente político, desgastando capital com uma rapidez recorde. Mas os problemas que restringem crescimento são mais antigos que desequilíbrio fiscal. As derrotas do governo na votação em primeiro turno da reforma da previdência no Senado, com queda de destaques que significariam uma economia de dezenas de bilhões, é outro fator que retrata a insatisfação do parlamento com o governo.

Desindustrialização

O envelhecimento do parque industrial data dos anos 1980, quando a inflação corroía o poder de compra e a posição de destaque no cenário internacional, conquistada a duras penas, chegou ao ponto de hoje, quando vemos arriscada a posição entre as 10 nações mais industrializadas.

Vetores do crescimento

A expansão econômica da década passada deixou evidentes alguns “vetores” de crescimento econômico. As exportações de commodities agrícolas e minerais adquiriram o protagonismo, na medida em que a indústria perdeu mercado nos produtos de menor valor agregado em relação aos emergentes e não conseguiu se tornar competitiva nos de maior valor agregado.
O investimento público em infraestrutura e habitação também puxou os números, com programas como Minha Casa, Minha Vida e o incremento no consumo das famílias a aquecer o mercado interno, em parte mediante os programas de distribuição de renda.
De acordo com o economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Rafael Cagnin, houve sensibilidade do governo em procurar estimular o gasto das famílias ao liberar os R$ 500 do FGTS, mas só isso não basta. “Muita gente coloca como dicotomia, o estímulo ao consumo e o investimento em infraestrutura, mas o fato é que caminham juntos”, defendeu.

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Privatizações

Um caminho para destravar o crescimento seria empregar valores obtidos com as privatizações na retomada de obras infra-estruturantes paradas. Seria necessária, além disso, concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs) e Privatizações em setores que a iniciativa privada tenha, além do interesse, a competência para administrar.
Passada a reforma da Previdência no Senado, o governo deveria focar todo o seu esforço para destravar as regras de licitação, melhorar a segurança jurídica dos contratos, licenças e dar celeridade ao processo de concessões e das PPP. Se não houver um esforço para se criar um “fast-track” para incentivar o investimento em infraestrutura, a paciência dos empresários e dos trabalhadores com o governo acaba em 2020.

"A atual recuperação é fruto de um trabalho que vem sendo feito desde o governo de Michel Temer, que em pouco tempo reverteu o desastre legado pelo estatismo patológico da presidente cassada Dilma Rousseff e deixou o governo razoavelmente em ordem para seu sucessor. Para isso, fez aprovar medidas saneadoras, como o teto dos gastos, a reforma trabalhista e a redução do subsídio ao juro cobrado pelo BNDES. A aprovação da abrangente reforma da Previdência foi continuação desse esforço – ainda que o governo Bolsonaro em muitos momentos tenha contribuído mais para sabotá-la do que para aprová-la. O pior inimigo do governo, nesse caso, é a tentação de entender o bom momento como oportunidade eleitoreira. A história mostra que não foram poucos os presidentes que aproveitaram períodos de expansão da economia para distribuir benefícios e subsídios a torto e a direito, na expectativa de ganhar simpatia e amealhar votos. Considerando-se que o presidente Bolsonaro já está em campanha pela reeleição, como atestam suas seguidas declarações como candidato, é lícito presumir que o processo de recuperação da economia corre o risco de, mais uma vez, ser comprometido em razão de imperativos eleitorais."

Curador VirtùNewsUma seleção dos editores do Virtù
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