Política e economia em tempos de desaceleração global

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Como governos populistas podem prejudicar o desenvolvimento da economia

Os sinais de desaceleração da economia global são evidentes. A queda no ritmo de crescimento do comércio global foi muito forte: de 5% ao ano para 1,7%. Outro indicador relevante, a produção industrial global, também embicou, caindo de 3,9% para 1,9% , como mostra o artigo escrito pelo economista Alexandre Schwartsman para o Virtù.  Há sinais de recessão econômica vindos ao mesmo tempo de países europeus ( Alemanha, Inglaterra e Itália) e da China.

Embora carreguem a fama de terem previsto “oito das três últimas recessões”, aforismo que descreve bem a tendência pessimista da profissão, os economistas, dessa vez, estão certos. O mundo está mesmo no fim de um condoreiro ciclo econômico e, sendo inevitável o pouso, tudo que sobra às autoridades monetárias é tentar fazer com ele seja suave.

Economistas esperam recessão global moderada

A notícia menos ruim é a de que parece ser esse o caso agora. O desaquecimento econômico à frente, muito provavelmente, não terá as feições apavorantes de juízo final da grande recessão de 2007-2008. O fato de, por enquanto, os Estados Unidos continuarem a apresentar indicadores de crescimento econômico e, melhor ainda, com  geração de emprego, é um dos fatores de otimismo mais relevantes. Além desses é notável que o setor financeiro, apesar de toda a descrença da opinião pública, ter feito parte das correções necessárias para evitar grandes colapsos. Os grandes bancos estão financeiramente sólidos, o que afasta do horizonte o fantasma apavorante do risco sistêmico. Esses pontos reforçam a percepção da maioria dos economistas de que a eventual recessão global será moderada.

Em outro sinal da maturidade, já começaram a ser feitas previsões de como será o cenário da economia mundial depois do período recessivo. Existe certa preocupação de que a recessão que se avizinha possa revelar algum dano estrutural mais profundo na economia mundial — da mesma maneira que, como dizia um bem humorado economista brasileiro, “a maré baixa revela quem está nadando pelado.” Qual seria essa rachadura estrutural?  O maior temor é o de que a recessão, mesmo branda, seja indicativa de que o mundo contraiu a notória “doença japonesa” — a luta crônica e inglória contra a deflação e o crescimento anêmico. Essa moléstia já amarra o crescimento econômico japonês há três décadas.

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Governos populistas prejudicam a economia

Todo esse quadro traz à tona outra realidade: a de que o problema central da economia reside na política. O populismo pode ter como face econômica inevitável o medo de investir e, como resultado, baixas taxas de crescimento.  A onda populista que dita as políticas públicas na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil contribuem para reduzir o comércio, aumentar as barreiras protecionistas e criar tensão política que mina o bom funcionamento do mercado e acirra as rivalidades entre as nações. A guerra comercial entre Estados Unidos e China afetou a economia global e gerou desconfiança e apreensão entre investidores, empresas e consumidores. O desastroso processo de saída da Inglaterra da Comunidade Europeia – “Brexit” – prejudicou a recuperação econômica na Europa e aumentou  a incerteza em relação ao futuro da Comunidade Europeia. A maneira tosca e inconsequente como o governo brasileiro reagiu às queimadas na Amazônia transformou o País no vilão global do meio ambiente e serviu de pretexto para justificar retaliações comerciais e políticas protecionistas dos países desenvolvidos que prejudicam enormemente as exportações brasileiras.

Esses episódios lamentáveis refletem escolhas políticas que afetam a economia global e ressuscitam políticas nacionalistas e protecionistas que contribuem para a destruição das políticas liberais – como a abertura econômica, a integração das cadeias globais de valor, o crescimento econômico e a geração de riqueza – que foram responsáveis por tirar mais de um bilhão de pessoas da pobreza nas últimas três décadas. Mas as políticas populistas vêm destruindo esses ganhos. A pobreza voltou a crescer, a disparidade de renda entre os mais e ricos e pobres aumentou, a economia estagnou e as rivalidades políticas acirraram na Ásia e Europa e também entre as grandes potências.

Populistas pensam no microcosmo nacional e não se importam com o impacto de seus atos na ordem internacional. Enquanto os estadistas se preocupam com o funcionamento das instituições, a estabilidade da ordem internacional e o destino da civilização; os populistas não poupam dilapidar as instituições, minar o funcionamento da ordem internacional e menosprezar o destino da civilização, se lhes renderem momentos fugazes de popularidade doméstica. Os populistas são destruidores dos pilares da tolerância e da civilidade que sustentam a democracia, a liberdade e o mundo civilizado.

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Resta pouca dúvida de que o furacão populista vem destruindo a credibilidade do Estado democrático de Direito, a confiança na ordem internacional e o senso de dever e de direitos da cidadania. A melhor maneira de um país se livrar dos governantes populistas é por meio dos mecanismos democráticos: o poder do voto, o funcionamento das instituições como contrapeso ao poder personalista do presidente e do primeiro-ministro e, por fim, a mobilização cívica em torno de reformas estruturantes. No Brasil, o populismo fez ressurgir o poder do Congresso como o epicentro das reformas do Estado e do contrapeso para frear o voluntarismo presidencial. Na Inglaterra, o Parlamento e os partidos se uniram para evitar que o primeiro-ministro conduza de maneira irresponsável o país em direção ao abismo político e econômico do “hard exit” da Comunidade Europeia. Na Turquia, Recep Erdogan, o presidente populista que vem destruindo as instituições democráticas do país, foi recentemente derrotado nas eleições municipais, que culminou com a vitória de um duro adversário político do presidente, Ekrem Imamoglu, para ocupar a prefeitura de Ankara, a capital do país. Na Itália, uma manobra oportunista do líder populista Matteo Salvini para derrubar o governo, fracassou. Formou-se uma nova coligação de partidos no Parlamento para dar apoio ao primeiro ministro Giuseppe Conte.

Esses sinais indicam que, aos poucos, as democracias começam a criar anticorpos para combater o vírus populista. É cedo para afirmar que o ciclo do populismo começa a perder força, mas uma coisa é certa: a estagnação da economia mundial não se resolverá apenas com políticas fiscais e monetárias. É por meio da política que a malaise da economia vai se dissipar. Daí a importância da mobilização da opinião pública, da atuação responsável das instituições como contrapeso aos líderes populistas e do resgate da virtude da política em torno das reformas estruturantes para livrar as democracias do cinismo, da descrença e da falta de confiança nos políticos que criaram as condições ideais para a propagação da epidemia do populismo.

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