Silos de milho em Lucas do Rio Verde, do estado do Mato Grosso. Foto: Gabriela Biló | Estadão Conteúdo

Queda do superávit expõe vulnerabilidade do comércio exterior brasileiro

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Modelo baseado em reserva de mercado, economia fechada e baixa participação no comércio exterior levou o País perder a competitividade internacional e a depender de poucos parceiros econômicos. Brasil precisa abrir a economia, privatizar as estatais e se aproximar das cadeias globais de valor e da produção de bens exportáveis de maior valor agregado.

As exportações brasileiras vão retrair em 2020 e afetar o nosso saudável superávit comercial. Além da queda das exportações, a retomada da atividade econômica aumenta as importações de insumos, derrubando o superávit de 45 bilhões de dólares em 2019 para 26 bilhões em 2020. Trata-se de uma queda significativa de 42% do superávit; uma espécie de seguro contra crises externas. Os dados são da Associação de Comércio Exterior Brasileiro (AEB).

O agronegócio, o principal pilar da nossa exportação, deve vender cerca de 5 bilhões de dólares a menos em comparação ao ano passado. O Brasil exportou 81 bilhões de dólares em 2019 de grãos e proteína animal e deve vender 76 bilhões de dólares no mercado internacional em 2020.

Deve-se debitar parte dessa queda à epidemia do coronavírus; um fato inesperado que derrubou o consumo dos produtos do agronegócio brasileiro na China – o nosso maior comprador. Mas é um erro culpar o coronavírus pela vulnerabilidade do nosso comércio internacional.

Brasil não é competitivo no mercado global

O Brasil vem apostando há décadas no modelo econômico errado, baseado no tripé do atraso: reserva de mercado, economia fechada e baixa participação do Brasil no comércio exterior. Essa combinação fatídica manteve o país distante das cadeias globais de valor, da produção de bens exportáveis de maior valor agregado e comprometeu a nossa capacidade de se tornar competitivo na economia global. Perdemos mercado para outros países emergentes e nos tornamos uma nação exportadora de commodities, graças a mão de Deus, que nos deu um país rico em minérios, e a competência dos nossos fazendeiros, que transformou o Brasil num dos maiores exportadores mundiais de alimentos.

Agronegócio: produtividade e tecnologia

O agronegócio escapou do tripé do atraso porque compreendeu a importância dos mercados globais para a venda de alimentos. Em vez de seguir o caminho da indústria, que se tornou dependente do Estado e de subsídios governamentais, o agronegócio investiu no aumento da produtividade e no avanço tecnológico para impulsionar a melhoria genética, a qualidade do solo e dos processos de plantio, armazenamento e comercialização, transformando o Brasil no grande exportador de commodities agrícolas e de proteína animal. Nosso agronegócio sustenta 1 bilhão de pessoas no mundo.

Mas nem o governo nem a economia aprenderam a principal lição do agronegócio: a mudança de paradigma começa pela mudança de mentalidade. Enquanto os governos e a indústria insistem em restringir a competição e proteger o mercado nacional, o agronegócio investe em se tornar cada vez mais produtivo e competitivo globalmente. A safra brasileira de 2020 deverá ser de 248 milhões de toneladas. Vamos nos tornar o maior produtor do mundo de soja, superando os Estados Unidos.

Parceiros comerciais brasileiros

Os efeitos negativos do coronavírus afetarão temporariamente às exportações brasileiras, mas as consequências nefastas do nosso tripé do atraso são muito mais graves. O mercado de exportação brasileira está limitado a três grandes parceiros comerciais: China, Estados Unidos e Argentina. O primeiro é o maior comprador dos nossos produtos agrícolas e de minério. O segundo importa nosso petróleo e produtos semimanufaturados de ferro e aço. O terceiro importa nossos produtos industrializados, principalmente automotivos.

Bolsonaro que tanto admira Trump e depende da China para as nossas exportações, assistiu os Estados Unidos e a China selarem uma trégua na guerra comercial entre os dois países, deixando parte da conta para o Brasil pagar. No acordo, China se comprometeu a comprar 15 bilhões de dólares a mais de produtos do agronegócio americano. Isso significa, comprar menos grãos e proteína animal do Brasil. Já a Argentina, sob nova direção do governo peronista de Alberto Fernandez e enfrentando uma terrível crise econômica, já tomou medidas protecionistas que derrubou em quase 40% as nossas exportações. Devemos ter déficit comercial com o nosso vizinho pela primeira vez desde 2003.

Abertura comercial

Bolsonaro precisa tirar do papel a sua promessa de abrir a economia, privatizar as estatais e tornar o Brasil mais competitivo. Essa é a única maneira de erradicar o país dos vícios do tripé do atraso. Se não abrirmos a economia e nos tornarmos um importante país no comércio internacional, as nossas exportações estarão sempre expostas às vulnerabilidades do nosso limitado grupo de parceiros econômicos.

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Curadoria
 

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