Deputados governistas fazem vídeos e transmissões em suas redes sociais durante o anúncio do resultado da votação da Medida Provisória 870/19 no plenário da Câmara dos Deputados. Foto: Dida Sampaio | Estadão Conteúdo

Antônio Napole | Transformações inesperadas

Tempo de leitura: 5 minutos

LIDERANÇA e GESTÃO PÚBLICA
*Professores do MLG – Máster em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP 

Artigo de Antônio Napole | administrador de empresas pela (FGV-EAESP), bacharel em Rádio TV (FAAP) e mestrando em jornalismo (Cásper Líbero). Napole é professor do MLG e vice presidente da Kaiser Associates, consultoria de estratégia.

Transformações inesperadas

Em outubro de 2018 o presidente Jair Bolsonaro havia criado uma rede ao seu redor com alcance de 76 milhões de seguidores nas redes sociais. Alguns números chamam atenção, como 31 milhões através de líderes religiosos, 10 milhões através de perfis falsos no Facebook e 9 milhões através dos filhos e de 767 mil militantes ativos. Isso sem falar nos seguidores diretos. Um ano após, o número total de seguidores é de 105,6 milhões, um crescimento de 39% segundo a consultoria Bites, especializada em monitoramento do ambiente político na internet. A TV Globo (aberta) atingiu diariamente a média de 100 milhões de pessoas.

Se pensarmos que existe um mercado da atenção que funciona como qualquer ambiente de negócio, podemos dizer que as redes sociais são substitutos perfeitos dos famosos pontos de audiência do Ibope. Um substituto tecnológico barato e com uma lógica própria: quanto mais polêmica, mais audiência. Basta ser criativo para escolher as provocações certas para movimentar as pessoas.

Não importa se você o segue para criticá-lo ou para apoiá-lo. Falem mal, falem bem, mas falem de mim. Manoel Fernandes, sócio e fundador da Bites, explica em seu curso “Eleições sem Comício”,que, mesmo que você, ao se indignar com uma publicação de mau gosto do presidente, a encaminhe para amigos para criticá-lo, certamente uma parcela achará a publicação interessante e a encaminhará para mais um conjunto de amigos. O saldo sempre será positivo em termos de atenção.

Essa capacidade de atrair atenção tem grandes consequências para as grandes redes de televisão, acostumadas a fazer bom uso de sua audiência como moeda de troca de um bom relacionamento com o governo federal.

Uma das principais consequências, visíveis para nós telespectadores e cidadãos, é uma mudança relevante do posicionamento da Rede Globo em relação ao governo federal. Desde a criação da emissora, em 1965, este é o primeiro governo em ela se coloca em confronto direto de forma quase permanente. Aparentemente os pontos do Ibope estão perdendo seu valor relativo para o governo federal.

Mesmo assim o grupo Globo faturou em 2019 R$ 14 bilhões e a TV, R$ 10 bilhões. Nos governos anteriores ao atual, os gastos em publicidade direta representavam em média 4% do total do faturamento da TV, cerca de R$ 400 milhões. Hoje estão na casa dos R$ 40 milhões. A perda desse faturamento não está afetando o desempenho econômico da emissora, mas está aparentemente liberando-a de se alinhar politicamente aos governos vigentes.

A desintermediação do mercado de atenção, trocando pontos do Ibope por tração nas redes sociais, tem, como efeito colateral, criado espaços de liberdade para a emissora. Chegamos ao ponto de observar jornalistas normalmente contrários à emissora a elogiar sua cobertura jornalística durante o período mais crítico da pandemia no Brasil.

Essa mesma desintermediação da atenção de telespectadores afeta partidos políticos, que praticamente perdem seu sentido como zeladores da relação dos candidatos com seus eleitores potenciais. Instituições perdem força nas redes em detrimento de personalidades. As relações nas redes sociais simulam relações entre pessoas. Não é à toa que a Magazine Luiza criou a Lu, uma personagem digital para intermediar a conversa dos potenciais clientes com a empresa.

O mundo digital ou cibernético está contido dentro de nossa realidade e tem a cada dia que passa maior presença em nossas atividades diárias. A pandemia acelerou sua influência e seu alcance. Forçou segmentos como médicos a professores, ainda reticentes em usá-lo, a adotar novas práticas, como aulas à distância ou prescrição de receitas médicas digitais. O mercado de identificação de pessoas através do reconhecimento facial, biometria ou de um conjunto de cruzamentos de informação tende a substituir nossos documentos de identidade, como RG ou CNH.

O fenômeno tem se tornado ainda mais importante porque não notamos mais sua presença e sua influência. É quando nos esquecemos que a tecnologia está presente em nossas vidas que ela se torna mais impactante. É nesse momento que as transformações mais profundas começam a fazer efeito. Por quê? Porque é a partir daí que perdemos a consciência e a compreensão de que estamos no meio de uma transformação.

Lembro-me das experiências cruéis juvenis de ver o sapo morrer em água fervente por não conseguir perceber as variações sutis de temperatura.

Essa consciência e essa compreensão podem evitar que você venha a sero sapo na panela.

Quem é quem?

*Professores do Máster em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP

Patricia Tavares
Doutora em Administração para FGV, Visiting Fellow of Practice da Blavatnik School of Government, Universidade de Oxford. Co-fundadora e sócia da Datapedia.info, a maior plataforma de dados sócio-econômicos e eleitorais do país. Consultora e Professora do Insper e do CLP.

Humberto Dantas
Doutor em ciência política pela USP, pesquisador pós-doutorando em administração pública pela FGV-SP. Head de Educação do CLP e coordenador do MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Antônio Napole
Administrador de empresas pela FGV-EAESP, bacharel em Rádio TV pela FAAP e mestrando em jornalismo na Cásper Líbero. Napole é professor do MLG e vice presidente da Kaiser Associates, consultoria de estratégia. 

Fernando S. Coelho
Doutor em administração pública pela FGV, professor de gestão pública da EACH-USP.  Docente-colaborador do Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Diego Conti
Doutor em administração pela PUC-SP e pela Leuphana Universität Lüneburg (Alemanha) em governança urbana e sustentabilidade. Mestre em administração pela PUC-SP com pesquisa sobre indicadores de sustentabilidade. Consultor internacional, pesquisador e professor de pós-graduação do mestrado em Cidades Inteligentes e Sustentáveis da UNINOVE e professor associado do CLP – Liderança Pública.

Denilde Holzhacker
Doutor em ciência política pela USP. Foi visiting scholar no Bentley University, (MA, Estados Unidos). Professora na ESPM-SP e coordenadora do Legislab-ESPM. Integra a rede de professores MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP.  

Vinícius Muller
Doutor em História Econômica, colaborador da Revista Digital Estado da Arte, do Estadão,  e professor do INSPER e do CLP. Autor de Educação Básica, Financiamento e Autonomia Regional (Ed. Alameda) 

Rodrigo Estramanho
Bacharel em Sociologia e Política pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP), Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP. É professor na FESPSP e no MLG, pesquisador do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (NEAMP) da PUC/SP e psicanalista membro do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae.

Humberto Falcão Martins
Professor da EBAPE/FGV e EAESP/FGV, visiting fellow na London School of Economics. Fundador do Instituto Publix. Foi Secretário de Gestão no Min. do Planejamento, delegado do Brasil no Comitê de Gestão Pública da OCDE e Presidente da Rede de Gestão Pública e Transparência do BID. Bacharel em Administração pela UnB, Mestre em Administração Pública pela EBAPE/FGV, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental (ENAP) e Doutor em Administração pela EBAPE/FGV.

Eduardo Deschamps
Doutor em Engenharia pela UFSC, Professor da Universidade Regional de Blumenau – FURB e do MLG – Master em Liderança e Gestão Pública do Singularidades-CLP. Conselheiro do CEE-SC. Presidente do CNE (2016-2018).

Gabriela Lotta
Doutora em ciência política pela USP, professora de administração pública pela FGV EAESP. Coordenadora do Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB/FGV).

Compartilhe conhecimento

Tempo de leitura: 5 minutos

Curadoria

Seleção diária de artigos para enriquecer a discussão da agenda positiva do País

5/5 QUARTA

  1. NO O GLOBO. Zeina Latif. Haverá apoio para aventuras? A eleição presidencial está distante, mas contamina o cenário econômico.
  2. NO VALOR. Martin Wolf. Menos conversa e mais ação pelo clima. O tempo é limitado e os desafios políticos e econômicos, enormes.
  3. NO ESTADÃO. Silvia Piva e Bianor Arruda Bezerra Neto. As três dimensões da transformação do Judiciário: pessoas, processos e tecnologia.
  4. NO VALOR. Tiago Cavalcanti. Produtividade estagnada. Quebra-cabeça brasileiro de ganhos significativos de escolaridade e estagnação da produtividade não é fácil de ser explicado.
  5. NO VALOR. Roberto Alvarez. A indústria brasileira entre o passado e o futuro. Os resultados pífios das nossas políticas industriais não construíram o futuro.

Receba a curadoria todos os dias em seu email

Compartilhe conhecimento