Trump, o “muy amigo” de Bolsonaro

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Acordo entre os EUA e o governo chinês pode prejudicar nossas exportações para a China, o maior parceiro comercial do Brasil.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o “muy amigo” de Bolsonaro, acabou de armar outra arapuca para os brasileiros. Em seu acordo com o governo de Beijing para suspender a guerra comercial entre os Estados Unidos e China, Trump exigiu que os chineses comprassem mais produtos agrícolas dos americanos. O valor não foi divulgado, mas segundo o próprio Trump, os chineses teriam de comprar em torno de 50 bilhões de dólares de produtos agrícolas dos Estados Unidos. Se o pedido de Trump for aceito pelos chineses, quem vai pagar parte dessa conta é o Brasil. É provável que a China diminua a compra de soja e carne do Brasil para satisfazer o presidente americano.

Trump é uma força desestabilizadora da ordem internacional

Trump não se importa com o Brasil ou com o mundo. Importa-se unicamente com o que imagina ser o melhor para os Estados Unidos – ainda assim se for melhor, primeiro, para ele próprio. Afinal, tirar um pouco da exportação agrícola do Brasil, assim como tirar tropas americanas da Síria e deixar os seus aliados – os Curdos – serem massacrados pela Turquia, faz parte da visão estreita de Trump. A “América em primeiro lugar” significa que o resto do mundo é desimportante. Os demais países são pequenas peças no tabuleiro da diplomacia que devem ser usados para alavancar a popularidade doméstica do presidente americano.

O problema é que não existe vácuo na política. Se Trump é incapaz de cumprir o seu papel protagonista de líder de uma superpotência econômica e militar para preservar a paz e a ordem internacional, outros atores surgem no cenário para ocupar o lugar dos Estados Unidos. No Oriente Médio, a Rússia vem assumindo um protagonismo cada vez maior como o fiador da balança na região. Bolsonaro, que há pouco tempo demonizava a China e apostava todas as cartas na sua relação com Trump e os Estados Unidos, começa a rever sua posição e buscar uma rápida reaproximação com a China – o maior parceiro comercial do Brasil.

Trump tornou-se a principal força desestabilizadora da ordem internacional. Suas bravatas e comportamento errático vêm colaborando para acirrar a tensão no Oriente Médio, a crise comercial com a China e a tratar com absoluto menosprezo os tradicionais aliados do país, como é o caso das nações europeias. Desde a presidência de Woodrow Wilson em 1913, os presidentes americanos compreenderam que a importância do papel relevante que os Estados Unidos tinham de desempenhar para preservar a ordem e a paz mundial. Trump é o primeiro presidente a romper com essa tradição e acreditar que os Estados Unidos podem viver no seu esplêndido isolacionismo e se tornar uma nação próspera e feliz.

O exemplo chinês

Esse foi justamente o erro que a China cometeu no século 15. Após a morte do grande navegador Zheng He em 1433, a China começou a se fechar para o mundo porque se achava infinitamente superior aos demais povos. O senso de soberba traz consigo as sementes da decadência. A China perdeu riqueza, comércio, conhecimento e capacidade de crescer, prosperar e inovar. O país empobreceu, foi invadido e humilhado durante 500 anos. Somente em 1978, sob a liderança de Deng Xiaoping, o país voltou a se abrir para o mundo e a se reerguer para se tornar novamente a grande potência do Oriente.

A eleição presidencial nos Estados Unidos em 2020 será um marco crucial para renovar a esperança ou redobrar a apreensão do mundo em relação à preservação do bom funcionamento da ordem internacional.

De modo deprimente, muito do que ameaça a economia mundial se deve a 'coisas idiotas'. A política comercial de Donald Trump está destruindo os fundamentos do sistema de comércio do pós-guerra, criando assim uma enorme incerteza, em busca do tolo objetivo do equilíbrio bilateral. O brexit é idiota: destruirá uma parceria frutífera com os vizinhos e parceiros do Reino Unido. O crescente atrito entre o Japão e a Coreia do Sul também é idiota: enfraquece os dois países, numa região cada vez mais dominada pela China.

MARTIN WOLFEditor do Financial Times, é um jornalista britânico formado e especializado em economia.

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